Quando leu pela primeira vez o roteiro de “Três Horas para Viver”, Rodrigo Santoro não amou seu personagem. Achou que Damián Zaldívar era um retrato “protocolar e tradicional” dos vilões clássicos de filmes de ação.
Mudanças no roteiro e sotaque brasileiro Não satisfeito, o ator brasileiro conversou por duas semanas com o diretor Scott Waugh por Zoom e o convenceu a fazer algumas mudanças, entre elas, a incluir o português em suas falas.
“Foi aí que nasceu a ideia de que, de repente, o pai do Damián era brasileiro”, contou Rodrigo Santoro ao g1.
A ideia de fazer Damián falar português surgiu durante um ensaio. Santoro soltou um palavrão de improviso, o que chamou a atenção do diretor, que inicialmente pensou que o ator estivesse falando espanhol. Depois de entender o que havia acontecido, porém, ele embarcou na ideia.
A nacionalidade de Damián não fica clara durante o filme, mas ele passa a alternar falas em português e inglês. Essa “brincadeirinha” com o idioma também aparece na trama como uma forma de provocação feita por Hank, que em determinada cena ironiza o “sotaque de merda” de Damián.
A fala abre espaço para outra leitura: a de que a provocação pudesse estar no roteiro justamente para sublinhar o preconceito contra latinos e imigrantes. Santoro discorda.
“Na verdade, eu acho que a piada é só sobre eu não ser australiano. E o australiano tem um sotaque muito específico. Muito forte”, explica.
Enredo e bastidores da produção Rodado na Austrália, o longa acompanha Hank Malone (Alan Ritchson), uma espécie de entregador de elite responsável por transportar os mais variados tipos de encomenda. Em inglês, ele é um runner, termo que também dá nome ao filme em sua versão original.
A trama começa a se desenrolar quando Hank, um brutamonte do bem, é convocado para levar um fígado que pode salvar a vida de uma menininha de sete anos. O problema é que o órgão também é cobiçado por Damián, um violentíssimo chefe de cartel, que tem seus próprios motivos para tentar roubá-lo.
Hank conta com a ajuda do médico tagarela Ben Bishop, interpretado por Owen Wilson. É ele quem o acompanha nessa peleja de tentar fazer o fígado chegar inteiro ao hospital e dentro do prazo. “Três Horas para Viver” estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (29).
Em outros personagens que falavam em inglês, Santoro precisou fazer o inverso: teve que “esconder” o próprio sotaque. Foi assim em “Em Busca da Justiça” (2016), filme de faroeste em que interpreta Fitchum e contracena com Natalie Portman.
“Meu personagem era um cara do interior dos Estados Unidos e eu tive que fazer um trabalho para perder o sotaque. Mas, normalmente, eu falo com o meu próprio sotaque e isso, na verdade, é uma característica.”
Santoro diz que esse esforço não é mais necessário hoje em dia. Para ele, o mercado internacional mudou bastante, e para melhor.
“Quando comecei, muitos anos atrás, o mercado era muito mais complicado. Hoje existem muito mais oportunidades para estrangeiros. Não é tão limitado como era na época.”
Mensagem social e critérios de escolha Apesar de ser um filme de ação, “Três Horas para Viver” também toca em uma questão que pode provocar uma discussão fora da tela: a doação de órgãos.
Quase todos os personagens na trama têm histórias familiares marcadas por pessoas que poderiam ter sido salvas por meio dessas doações, seja de órgãos, ou até mesmo de sangue.
Nesse contexto, Santoro também destaca o trabalho de profissionais que se colocam em situações de risco para ajudar outras pessoas. Ele citou médicos, enfermeiros e bombeiros como exemplos:
“No caso do personagem do Hank e do Ben, eles estão colocando as suas próprias vidas em risco para salvar a vida de uma pessoa que eles nem conhecem. Eu tenho uma tremenda admiração por essas pessoas.”
Após mais de 20 anos trabalhando em Hollywood, Santoro diz que mantém essencialmente o mesmo critério desde o começo para escolher seus personagens:
“Eu preciso me relacionar com as histórias. É claro que com a experiência, eu vou amadurecendo e o critério vai mudando um pouquinho. Mas a essência é essa”.
Em “O Último Azul” (2025), filme de Gabriel Mascaro, ele interpretou o barqueiro Cadu, que se apresenta como “machão”, inicialmente, mas esconde vai se revelando um homem sensível e apaixonado. Ele diz ter sido atraído para o projeto pelo diretor e pela temática do longa, que aborda o etarismo.
“Essa coisa de encostar o idoso enquanto a pessoa está cheia de vontade de viver e a sociedade tenta encerrar a vida da pessoa… é um tema urgente, que me move muito.”
Já em “Corrida dos Bichos” (2026), ele interpreta Abu, o showrunner responsável por comandar uma espécie de videogame levado para a vida real, em que os participantes disputam uma competição mortal.
“Muita gente falou que parece com Jogos Vorazes. Esses filmes que falam de jogos. Mas ele foi escrito muito antes e trata de questões como catástrofe climática e abismo social, mesmo sendo uma distopia.”
Para o ator, até quando um filme não se aprofunda completamente em determinada questão, ele tem a capacidade de, ao menos, apresentá-la para o público.
“Um filme de ação pode entreter e fazer refletir. Por que não?”








