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Legado de Belchior: 80 anos de um ícone restrito a Alucinação

Obra do cantor cearense vai muito além do famoso disco de 1976, exigindo um mergulho em álbuns menos lembrados de sua discografia.

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Belchior, que faria 80 anos, é cada vez mais cultuado, mas a devoção gira em torno do álbum 'Alucinação' e ignora a maior parte da obra do artista

Antonio Carlos Belchior, que nasceu em 26 de outubro de 1946 e faleceu em 30 de abril de 2017, passou por um período de ostracismo e desvalorização no mercado fonográfico. A redescoberta do cantor cearense começou justamente quando ele decidiu sumir, vivendo em um exílio errante entre 2007 e 2017 no Uruguai e no interior do Rio Grande do Sul.

Crescimento do interesse pela obra Como é comum na indústria musical, a devoção ao compositor ganhou ainda mais força após o seu falecimento aos 70 anos. Na data em que completaria 80 anos, o músico continua acumulando admiradores, impulsionado por livros, séries, cinebiografia, documentários, musicais teatrais e shows tributo que mantêm sua memória em evidência.

O peso do álbum de 1976 Apesar da enxurrada de homenagens, todo esse entusiasmo costuma ficar restrito ao LP “Alucinação”, lançado em 1976 e amplamente tido como a obra-prima da discografia do cantor. O sucesso do compositor começou em um festival realizado há 55 anos, quando apresentou “Na hora do almoço” (Belchior, 1971), mas foi nas dez faixas do disco de 1976 que ele traduziu com precisão a angústia do migrante nordestino no Sudeste e o fim do sonho hippie.

Grandes sucessos fora do disco famoso Além do repertório lapidar desse antológico LP, que expressava os desesperos de uma juventude diante da ruína dos ideais dos anos 1960, a carreira do artista produziu outros clássicos de alcance transcendental. Entram nessa lista faixas como “Mucuripe” (1972, feita em parceria com Raimundo Fagner), “Todo sujo de batom” (1974), “Galos, noites e quintais” (1976), “Coração selvagem” (1977), “Divina comédia humana” (1978) e “Comentário a respeito de John” (1979).

Explorando a discografia menos conhecida Quem deseja ir além do óbvio na obra do cantor percebe que sua veia como melodista perdeu força a partir dos anos 1980, fase marcada por álbuns de qualidade irregular como “Objeto direto” (1980), “Paraíso” (1982), “Cenas do próximo capítulo – 1984” (1984), “Melodrama” (1987) e “Elogio da loucura” (1988), os quais ainda guardam esporádicos lampejos criativos.

O resgate do álbum Baihuno Uma excelente alternativa para quem quer fugir da superficie e conhecer a fundo o universo criativo do compositor é ouvir o consistente LP “Baihuno”, lançado em 1993. O trabalho representou a última grande investida do artista para recuperar a potência de seus discos dos anos 1970, período em que marcou época ao retratar a solidão de uma geração oprimida pela ditadura e pelo capitalismo.

Versos visionários e atuais Nesse disco de 1993, o cantor criticou o extremismo e a decadência social em letras que ganharam uma impressionante atualidade nos dias de hoje: “Trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes, barbárie, devastação / O rinoceronte é mais decente do que esta gente demente do Ocidente cristão”, denunciou Belchior em 1993 em visionários versos da música-título “Baihuno” que ressoam tristemente atuais no cenário social e político do Brasil de 2026.

A necessidade de expandir a audição Embora o ápice criativo do cantor esteja concentrado no intervalo entre 1973 e 1979, ano em que emplacou seu último grande sucesso com “Medo de avião”, é fundamental vasculhar o restante de seu catálogo. Afinal, por mais brilhante que seja o disco de 1976, manter o culto ao artista octogenário focado exclusivamente em um único álbum corre o risco de gerar desgaste e saturação em breve.

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