Enquanto brinquedos infantis, móveis e automóveis passam por rigorosas auditorias e exigem selos de certificação de terceiros, o setor pecuarista do Brasil ainda demonstra forte resistência em revelar a origem dos animais e os insumos empregados na produção.
O contraste entre a pecuária e a indústria moderna
Essa assimetria revela um paradoxo incômodo para uma cadeia produtiva que almeja ser globalmente competitiva. Se a indústria em geral compreendeu há décadas que a certificação privada independente é indispensável para comercializar seus produtos, a pecuária continua enxergando a abertura de dados como um risco, mantendo posturas típicas do século passado.
O momento financeiro ideal para investir
O cenário econômico atual é o mais propício em muitos anos para mudanças estruturais. As cotações pagas pelos animais alcançaram patamares inéditos, garantindo fluxo de caixa, margens de lucro e fôlego financeiro para que os produtores possam investir de vez em controle de insumos e rastreabilidade.
Apesar dessa janela de oportunidade, prevalece um comportamento defensivo. A recusa em detalhar os processos produtivos ignora as demandas do mercado consumidor global, que hoje exige garantias absolutas sobre a origem do que consome.
A importância da auditoria independente
A ideia de que a certificação externa representa apenas burocracia onerosa não resiste a uma análise básica de mercado. Sem processos de auditoria independente, a declaração do criador perde força frente aos compradores internacionais, tornando impossível diferenciar quem cumpre a legislação de quem apenas alega cumpri-la.
Essa opacidade prejudica principalmente o produtor honesto, gerando uma generalização da desconfiança que penaliza os melhores agentes do mercado. Quem adota práticas corretas deveria liderar a cobrança por sistemas de rastreabilidade individual, instrumento fundamental para destacar o trabalho bem feito.
Avanço na eficiência e novos rumos
Historicamente, o setor dependia da abertura contínua de novas áreas para expandir a produção, utilizando a relação de troca como principal termômetro. Contudo, o cenário mudou radicalmente. Hoje, produzimos mais quilos de carne por hectare ano, e isso se chama eficiência!
Adotar o controle rigoroso de insumos e declarar a procedência do rebanho não constitui um favor prestado ao consumidor ou uma concessão a organizações não governamentais. Trata-se de uma exigência básica de sobrevivência mercadológica.
Em última análise, a aversão à transparência expõe vulnerabilidades internas de quem prefere a penumbra à luz. Enquanto esse temor prevalecer, a pecuária continuará desperdiçando um momento econômico histórico e acumulando atrasos que já deveriam ter sido superados.








