O prestigiado cineasta brasileiro Karim Aïnouz lançou oficialmente no Brasil seu mais novo projeto internacional, Rosebush Pruning. Após passar pelo Festival de Berlim e pelo Festival do Rio, o filme chegou às salas de exibição nacionais nesta quinta-feira (15), trazendo um elenco global que inclui nomes como Elle Fanning, Callum Turner, Riley Keough, Jamie Bell, Lukas Gage, Elena Anaya, Tracy Letts e Pamela Anderson.
O desafio da escalação e o interesse dos atores
O diretor, conhecido por obras como A Vida Invisível e Motel Destino, destacou que o interesse dos protagonistas foi fundamental para viabilizar a produção. Segundo ele, o roteiro assinado por Efthimis Filippou foi o grande atrativo para os artistas, que buscavam papéis fora de seus padrões habituais.
“Houve um apetite muito grande desses atores pelo material. A Elle almoçou comigo e contou que tinha lido o roteiro (escrito por Efthimis Filippou) e adorado sua personagem. Ela sempre quis fazer alguém assim, que chega como uma espécie de estrangeiro e provoca uma mudança. Para um ator, é muito estimulante interpretar personagens que nunca interpretou. E acho que, para mim, também”, diz o diretor.
Enredo e inspirações
A trama se passa na Catalunha e foca em uma família norte-americana abastada que vive em um ambiente de excentricidade e desajuste moral. O conflito central é desencadeado quando Jack, o irmão mais velho, decide abandonar o grupo para viver com sua namorada, Martha, interpretada por Fanning. A partir daí, a dinâmica familiar, marcada pela superficialidade e pela figura de um patriarca autoritário, entra em colapso.
O projeto nasceu de uma sugestão do produtor Michael Weber, que propôs uma releitura do clássico italiano De Punhos Cerrados (1965). Para Aïnouz, o longa funciona como uma extensão de suas investigações sobre figuras masculinas tóxicas, conectando-se com seus trabalhos anteriores.
“Quando a gente pensou no projeto, no começo, era quase como uma continuação de “O jogo da rainha” (2023) e “Motel Destino” (2024). Porque são filmes com personagens masculinos antagonistas, muito perigosos, tóxicos, sobre patriarcas”.
“Em ‘Rosebush Pruning’, é uma história de como esse patriarca, de fato, domina essa família como um presidente que domina um país. Então acho que tem uma série de paralelos com o mundo que a gente está vivendo”, diz o cineasta.
Aposta na sátira e no desconforto
Aïnouz ressalta que a escolha pela sátira permitiu abordar temas densos com uma camada de humor ácido, algo que ele considera visceral. Sobre a recepção das cenas mais intensas pelo elenco, o diretor revelou que não houve receio por parte dos atores, mas sim uma curiosidade em explorar o incomum.
“Quando o roteiro estava pronto, achei que nenhum ator iria querer fazer esse filme, porque ele é tão maluco (risos). Mas foi justamente o contrário. Houve uma curiosidade e um desejo muito grande de participar do projeto, porque era muito diferente de tudo que os atores tinham feito. Então, não ouvi ninguém dizer ‘Não vou fazer isso’, porque estava no roteiro. Acho que foi exatamente isso que os estimulou, assim como a mim, a sair da zona de conforto”, diz o diretor.
O cineasta acredita que o público brasileiro terá uma conexão particular com a obra, devido à ironia e ao despudor presentes no texto.
“Acho que é um filme que, de fato, é muito mais compreendido aqui do que em outros países, porque ele tem um senso de ironia cheio de referência”.
“Muitas pessoas estão comparando o filme a obras de Nelson Rodrigues. Eu acho que são muito diferentes. Mas confesso que tem ali, também, um despudor, que pode ser bem-vindo para o público brasileiro. Levar essas histórias para o cinema pode ser bom para um público que tem um senso de humor que outros países não têm”, declara o cineasta.
Identidade visual e novos rumos
Mesmo em produções internacionais, Aïnouz enfatiza a manutenção de sua identidade autoral, que se reflete na escolha das cores, na trilha sonora de Matthew Herbert e na fotografia de Hélène Louvart. O diretor reforça que o seu foco é a busca por narrativas que o instiguem, independentemente da localização geográfica ou do idioma.
“Eu acho que é sempre estar sendo estimulado por histórias e personagens pelos quais eu me apaixono, por histórias que eu acho que devem ser contadas. Então, fazer um filme aqui, na Espanha ou na Inglaterra…”
“Eu sempre estou procurando algo que me instigue, independentemente de onde isso acontece e em que língua é falada”, conclui o diretor.








