Disponível nas plataformas digitais desde o final de outubro, o disco 03 na ribanceira reúne os talentos de Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Thiago França em uma obra essencialmente fincada no gênero, mas marcada por uma atmosfera de tempo nublado. A cadência característica dita o ritmo de mais um acerto no passo torto desse trio que se destaca na cena indie paulistana.
Poesia e melancolia no repertório
A capa do projeto traz uma pintura assinada por Romulo Fróes e introduz os ouvintes no universo de faixas como o samba Saída, assinado por Rodrigo Campos e Romulo Fróes, que retrata artistas na “Roda viva perdida querendo encontrar / Saída”. O projeto aposta na alta qualidade literária em sete de suas nove faixas, já que o restante é composto por instrumentais. Um exemplo é a letra de Bodiado, criada por Romulo Fróes, Thiago França e Clima, que funciona perfeitamente como poema e ganha formato de samba angustiado e cinzento, repleto de ecos de Chico Buarque.
O timbre áspero e opaco de Romulo Fróes intensifica o clima desassossegado que domina o repertório. Ainda assim, é possível notar frestas de luz em meio ao tom existencial sombrio.
Arranjos e experimentações musicais
Em O nosso jogo de azar, parceria de Romulo Fróes e Thiago França, o eu-lírico busca uma reviravolta que dialoga diretamente com o arranjo da faixa. A instrumentação aposta na beleza rítmica com o uso de banjo, tantã, repique de mão, agogô e reco-reco manuseados por Rodrigo Campos, enquanto o cavaquinho fica sob responsabilidade de Thiago França — músico que costuma transitar pelos sopros dissonantes do saxofone. A fricção entre esse instrumento e a guitarra de Campos molda a sonoridade meio noise do tema instrumental Chapéu lilás, composto pela dupla.
Utilizando um aparato percussivo semelhante, Rodrigo Campos comanda a faixa Mamoso, composição instrumental própria que evoca um espírito folião nos moldes do samba-choro.
O peso do tempo e o desfecho do disco
Apesar dos momentos de respiro, a instabilidade climática e emocional retorna com força em Corpo e capim, parceria de Romulo Fróes e Thiago França onde a voz de Fróes sentencia: “Choveu dentro de mim”.
A sensação de perda e desalento também ecoa nos versos finais de Mora na memória, assinada por Thiago França e Clima, com vocais divididos entre Romulo, Clima e Juliana Perdigão.
O encerramento do projeto, que teve início com Um dois três você (Rodrigo Campos e Romulo Fróes), reserva a grande obra-prima do repertório: Um rio sem rio. Neste expressivo samba-canção interpretado por Verônica Ferriani e Romulo Fróes, o vazio existencial atinge seu ápice, marcando o fim da festa. Mesmo diante desse cenário de luzes apagadas, o álbum consolida o talento e a ousadia do trio em um mergulho artístico fascinante.









