O setor produtivo nacional registrou um aporte expressivo de recursos por meio de programas de fomento. Entre 2023 e meados de 2026, a política industrial brasileira acumulou R$ 755,2 bilhões em crédito, contemplando mais de 600 mil iniciativas. Os dados foram consolidados no Radar da Indústria nº 7, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).
O papel do Plano Mais Produção na alta dos recursos O principal motor dessa injeção de capital é o Plano Mais Produção (P+P), ferramenta central da Nova Indústria Brasil (NIB). As aprovações anuais do mecanismo saltaram de R$ 155 bilhões, em 2023, para R$ 225,1 bilhões, em 2025, o que representa um avanço nominal de cerca de 45%.
A distribuição dos valores abrange frentes estratégicas para a modernização do parque fabril. Do montante do P+P, R$ 507,7 bilhões foram direcionados para a ampliação da produtividade, enquanto R$ 82,5 bilhões financiaram projetos de inovação. O eixo verde recebeu R$ 53,5 bilhões e as operações voltadas à exportação somaram R$ 51,2 bilhões.
Desigualdade regional e avanço no Norte Geograficamente, os financiamentos com dados regionalizados totalizaram R$ 695 bilhões. O Sudeste ficou com a maior fatia, concentrando 46% do total. Na sequência figuram o Sul (22%), Nordeste (14%), Centro-Oeste (10%) e Norte (7%).
Apesar da concentração no Sudeste, o Norte se destacou pelo ritmo de crescimento, registrando uma alta de aproximadamente 72% nas aprovações de crédito entre 2023 e 2025. No mesmo intervalo, o Sudeste avançou 57% e o Sul cresceu 55%.
Apoio à transformação ecológica e sustentabilidade A transição para uma economia de baixo carbono ganhou relevância nos desembolsos. O P+P direcionou R$ 73,8 bilhões para 26 mil projetos da Missão 5, focada em bioeconomia e segurança energética. Complementando as ações, o Fundo Clima aportou R$ 11,7 bilhões para iniciativas sustentáveis até setembro de 2026, divididos entre transição energética, indústria verde e aquisição de maquinário ecológico.
Para a gerente de Desenvolvimento Produtivo da CNI, Samantha Cunha, os instrumentos são importantes para que as empresas enfrentem os atuais desafios do setor.
“Todos esses recursos são relevantes para que a indústria consiga responder aos atuais desafios produtivos, tecnológicos e de competitividade, como, por exemplo, a transição ecológica — com desafios de sustentabilidade — e a transformação digital”, afirma.
O superintendente de Política Industrial da CNI, Fabrício Silveira, destaca que a transformação ecológica exige volumes elevados de capital e instrumentos capazes de financiar projetos com diferentes níveis de risco, prazos de maturação e perspectivas de retorno.
“No Brasil, essa pauta passou a ser apoiada por um conjunto crescente de instrumentos, que se inserem em uma agenda ampla e atuam de forma complementar sobre diferentes necessidades de financiamento da transformação ecológica e produtiva”, explica.
Metas de digitalização e desafios do crédito A digitalização das fábricas também recebeu incentivos expressivos, com R$ 119,8 bilhões aplicados em 57 mil projetos voltados a esse objetivo. Programas como o Brasil Mais Produtivo e o Mover atuam na capacitação tecnológica e no apoio à pesquisa e desenvolvimento na cadeia automotiva.
Apesar da injeção de capital, a indústria de transformação tem apresentado perda de dinamismo. O setor, que cresceu 3,9% em 2024, recuou 0,2% em 2025 e projeta um desempenho tímido de 0,7% para 2026.
Para Silveira, as condições econômicas dificultam a efetividade dos instrumentos de política industrial, especialmente em razão do custo do crédito e dos insumos.
“Entre os entraves associados ao Custo Brasil, os juros elevados se destacam ao encarecer o crédito, restringir investimentos e enfraquecer a demanda, reduzindo a capacidade das empresas de responder aos estímulos oferecidos pelas políticas de desenvolvimento produtivo”, destaca.
Comparativo com outros setores econômicos Mesmo com a expansão recente, a CNI aponta que o volume de recursos para o setor industrial ainda é reduzido se comparado ao de outras frentes econômicas, a exemplo do agronegócio, que conta com mais de R$ 500 bilhões anuais no Plano Safra.
Na visão de Samantha Cunha, o país precisa ampliar os investimentos para acompanhar o ritmo global de fomento industrial.
“Sabemos que as políticas industriais voltaram a crescer no mundo, dado o tamanho dos desafios que temos. São mais de 12 mil medidas de política industrial sendo tomadas nas principais economias do mundo. E os volumes voltados para essas políticas são bastante significativos. Portanto, temos o desafio, sim, de ampliar os recursos para o desenvolvimento da indústria”, afirma.









