O suspense “Sobrevivência”, com direção, roteiro e atuação de Ben Affleck, alcançou a liderança do ranking da Netflix após sua estreia no dia 8 de outubro. Na trama, o astro de Hollywood vive um aspirante à prefeitura de Los Angeles que aparenta desfrutar de uma rotina perfeita ao lado da esposa Abigail, interpretada por Kerry Washington, em uma bela residência.
O desaparecimento que abala as aparências A calmaria da família é interrompida quando o filho do casal desaparece enquanto passeia com a babá Cecília (Adriana Paz) e o compan dela, Ramón (Luis Gerardo Méndez). O sequestro expõe fraturas profundas, questionando as prioridades, os privilégios e a verdadeira essência daquela vida idealizada.
“Temos o hábito de mentir, temos o hábito de apresentar uma falsa verdade, e então a questão é quanto é que estamos fazendo isso um com o outro”
Retrato social e a comunidade latina Ambientada em Los Angeles, a produção cruza o enredo principal com reflexões sobre a mídia, o poder público e a forte presença da comunidade latina. O cineasta buscou retratar a realidade sem maquiagem ou discursos superficiais.
“O que eu espero é que, ao assistirem a isso, reconheçam algo verdadeiro, algo que observe o mundo como ele é, com circunstâncias que muitas vezes são bem difíceis e, em alguns casos, impossíveis — especialmente para alguns dos personagens latinos do filme. E que [o filme] não tente mascarar essas situações, nem torná-las mais leves, nem explorá-las apenas para me cobrir de virtude e glória por ser alguém que aponta essas questões”.
Para garantir autenticidade ao projeto, o cineasta deu autonomia ao elenco latino para moldar os diálogos de suas próprias cenas.
“Eu dizia: ‘Vocês escrevem estas cenas, vocês contribuem para estas cenas, vocês criam isto e trazem a voz de vocês para isto’. E eu achei muito mais verdade.”
“É difícil mostrar um sistema, mas você pode mostrar uma pessoa. Você pode se identificar com uma pessoa e com as circunstâncias em que ela está. As pessoas são tratadas como pessoas, não como arquétipos, não como símbolos de alguma coisa, o que significa que elas podem ser um bocadinho mais complicadas e não encaixam exatamente no estereótipo, porque ninguém se encaixa”.
Crítica sutil ao sistema de poder Embora evite discursos partidários óbvios, a narrativa aborda o cenário político através do impacto na vida comum, sintetizado na fala em espanhol do personagem Ramón: “Nosso filho está nas mãos desses políticos gringos”.
O ator Luis Gerardo Méndez destacou a relevância dessa fala para o contexto global da obra.
“Não se trata apenas da situação retratada na obra, mas fala sobre o mundo atual. A vida de cada filho e filha neste mundo está nas mãos desses políticos”.
“Não estou falando apenas desta situação específica, mas de aquecimento global, questões políticas, guerras, injustiças… Então, é uma fala muito importante e diz respeito à situação vivida por qualquer pessoa que não nasceu nos EUA, mas vive [nos EUA]. Por exemplo, especialmente em Los Angeles, nossos personagens correm riscos enormes o todo o tempo e são os que têm menos proteção. Eles só têm seus corações e sua força, e estão juntos nessa, e isso é muito comovente”.
Conclusão sobre a farsa das aparências Para o protagonista e diretor, a essência da atividade pública reside exatamente naquilo que se decide exibir ao público.
“A política, em alguns aspectos, a nível local, é como se tratasse de apertar mãos e fazer relações. Mas na verdade, a política, em grande parte, é sobre o que eu mostro a todo mundo sobre o meu casamento. ‘Olhem para mim, votem em mim porque eu tenho um casamento tão ótimo e sou um homem de família’”.
“A verdade é que eu não sei se o casamento de alguém realmente pode aguentar o tipo de escrutínio de ‘eu consigo ver cada coisinha’, e por isso, temos o hábito de mentir, temos o hábito de apresentar uma falsa verdade, e então a questão é quanto é que estamos fazendo isso um com o outro”.








