Programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), funcionam como a base de sustentação financeira para milhares de municípios brasileiros. Pesquisa conduzida pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA-USP, alerta que qualquer interrupção ou perda de valor desses repasses pode desencadear um efeito dominó, provocando queda na renda, fechamento de comércios e aumento da pobreza.
A relevância dos auxílios para cidades menores
Nas aproximadamente 4 mil cidades brasileiras situadas fora das regiões metropolitanas, o impacto dessas transferências é, em média, duas vezes maior do que nos grandes centros urbanos. Como exemplo, no Ceará, enquanto os benefícios equivalem a 22% da renda na capital, no interior esse montante atinge 40%. Essa diferença torna os municípios do interior muito mais vulneráveis a mudanças nas políticas de reajuste.
O capital injetado pelo governo circula rapidamente em mercados, farmácias e prestadores de serviços locais. Segundo a economista Luiza Nassif, co-diretora do Made-USP, boa parte dos recursos recebidos é destinada à compra de produtos e serviços essenciais. Esse ciclo de consumo é o que mantém postos de trabalho e garante a arrecadação tributária dessas localidades.
Riscos de um cenário sem reajustes
Simulações econômicas que projetaram o período entre 2022 e 2025 revelaram que, caso os benefícios fossem congelados — seguindo o modelo de 2019 a 2022 —, a renda agregada do interior poderia sofrer uma retração de até 10,8%. Estados como Piauí, Amapá e Rio Grande do Norte seriam os mais prejudicados, com estimativas de queda de até 18% na circulação financeira.
Impacto direto na sobrevivência das famílias
A desvalorização desses pagamentos afeta diretamente a qualidade de vida da população. Luiza Nassif explica que, nas famílias com renda de até 1,5 salário mínimo por pessoa, os benefícios sociais e previdenciários podem representar até 50% do rendimento total. O estudo do Made-USP estima que, sem a valorização real dos últimos anos, cerca de 2,7 milhões de brasileiros teriam caído na linha da pobreza.
Em última análise, a proteção social deixa de ser apenas uma política assistencialista para se consolidar como um pilar estratégico que assegura a estabilidade e o desenvolvimento econômico das cidades de pequeno e médio porte no país.








