Há 20 anos, em 7 de outubro de 2006, os Racionais MC’s mudavam os rumos da música urbana no Brasil ao lançarem seu primeiro registro audiovisual, batizado de 1000 Trutas, 1000 Tretas. O projeto nasceu cercado de expectativas após o sucesso estrondoso do álbum duplo Nada Como um Dia após o Outro Dia, lançado no início de 2002. Contudo, o caminho até o produto final foi repleto de obstáculos, exigindo uma verdadeira maratona de paciência, investimentos próprios e resiliência por parte de Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay.
O caos técnico e o cancelamento da primeira tentativa
A primeira tentativa de gravação ocorreu no galpão Casaluce, localizado no Brás, em São Paulo. O espaço, que comportava apenas três mil pessoas, acabou recebendo um público de dez mil fãs. A superlotação inesperada gerou um enorme problema estrutural que acabou sabotando todo o material captado pelas câmeras da época.
“Com a superlotação, alguns cabos acabaram sendo pisados e danificados, comprometendo a captação, e aquele material não pôde virar o DVD. A gente podia ter parado ali, mas decidiu fazer de novo”, diz Mano Brown, em comunicado sobre os 20 anos do DVD.
A reconstrução do projeto e a nova gravação
Apesar do revés inicial, o quarteto decidiu apostar novamente na ideia, desta vez estreitando laços com a equipe técnica. O comando da direção ficou com Roberto T. Oliveira, que passou a acompanhar o grupo em turnês pelo Brasil e pelo exterior, entendendo a dinâmica e a essência dos artistas. Para viabilizar a produção de forma independente, os músicos recusaram propostas de emissoras de televisão e abriram mão de grandes cachês.
A segunda diária de gravação aconteceu em abril de 2004, durante uma apresentação marcante no Sesc Itaquera, na Zona Leste paulistana. O orçamento total da empreitada chegou a R$ 400 mil na época, bancados integralmente pelos próprios artistas, que optaram por manter uma forte identidade visual inspirada nas favelas, sob a supervisão do diretor de arte Flávio Sadella.
Momentos icônicos e participações de peso
O projeto também ficou marcado por surpresas de última hora, como a participação especial de Jorge Ben Jor. A definição sobre qual faixa o ícone nacional interpretaria aconteceu nos bastidores, enquanto o cantor cortava o cabelo no camarim. Seguindo a recomendação de Mano Brown, a escolha recaiu sobre a música Abenção Mamãe, Abenção Papai, do álbum Sonsual.
Outro momento de tensão ocorreu durante a execução de Vida Loka Pt. 2, quando Ice Blue mergulhou na multidão. A euforia do público acabou danificando o equipamento do cinegrafista Rodney Suguita, que precisou terminar o trabalho sem o visor de retorno da câmera.
“Eu era o único cinegrafista ‘livre’, então fui com a câmera para o camarim e, durante o show, fiquei no público, rodando. Quando o Blue foi para o público, ele foi dando tapa para tudo quanto é lado e acabou acertando a lente e o visor, que quebrou. Gravei todo o resto sem um retorno de imagem”, explica ao g1.
Legado e impacto cultural na periferia
O resultado de todo esse esforço conjunto transcendeu as expectativas iniciais. Mais do que um simples registro de palco, o material funcionou como um documentário intimista sobre a rotina, as viagens e o pensamento político do grupo ao longo de quase uma década de estrada.
Hoje, o projeto acumula milhões de visualizações nas plataformas digitais e permanece vivo no imaginário popular como um dos maiores testamentos da cultura hip-hop nacional, consolidando a força artística e a independência dos Racionais MC’s na história da música brasileira.








