O cenário de pesquisas clínicas no Brasil vive um momento de ascensão impulsionado pela implementação do marco legal que regula a área. Dados da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) revelam que o país subiu da 18ª para a 12ª posição no ranking mundial de testes realizados entre 2025 e o primeiro semestre de 2026. Com aportes anuais superiores a R$ 2 bilhões, a expectativa é que o Brasil alcance o top 10 global em breve.
Agilidade regulatória e novos prazos
A Lei 14.874, sancionada em 2024 e regulamentada no ano seguinte, estabeleceu o Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos. A mudança reorganizou fluxos e reduziu drasticamente o tempo de espera: o parecer ético deve ser emitido em até 30 dias úteis, enquanto a análise da Anvisa tem o teto de 90 dias úteis.
A presidente da Roche Brasil, Lorice Scalise, destaca que a otimização permitiu que processos que antes eram sequenciais agora ocorram em paralelo. Sobre a nova dinâmica de avaliação ética, ela afirma: “Vamos supor que tem dez centros participando de um estudo. Antes a gente precisava da aprovação do comitê de ética local de cada centro de pesquisa. Agora um comitê acreditado é responsável por fazer a comunicação com os demais e dar o parecer final”.
Scalise reforça que a simplificação não comprometeu o rigor técnico. “A Anvisa é uma das agências mais renomadas, é referência no mundo inteiro. A gente ainda tem alguns gargalos de fila (de processos para análise), mas todas as questões estão sendo trabalhadas. Hoje, a gente tem um excelente processo”, completa a executiva.
Investimentos e descentralização científica
A atratividade do Brasil cresceu também devido à diversidade genética da população. Empresas como a Roche planejam investir R$ 590 milhões por ano no país em estudos para patologias como Alzheimer, Parkinson, câncer de mama, lúpus e novas tecnologias de emagrecimento.
A diretora de investigação clínica da farmacêutica, Danielle Galbiatti, aponta que o crescimento exige um esforço conjunto na formação de quadros especializados. “É um movimento de união com centros de pesquisa, laboratórios. Com essa projeção e a vinda de novos estudos, existe a necessidade de capacitar os profissionais e as unidades”, explica. O foco atual é descentralizar os estudos do Sul e Sudeste, levando infraestrutura para as regiões Norte e Nordeste. “Um estudo é um ambiente controlado. O centro de pesquisa tem que ter uma equipe muito bem estruturada, porque esse paciente precisa de uma assistência diferente”, ressalta Galbiatti.
Perspectiva regional e benefícios aos pacientes
O debate sobre a profissionalização da área também envolve a integração latino-americana. Mario Urcuyo, da Fundação de Pesquisa e Inovação da Costa Rica, defende o desenvolvimento de carreiras específicas para monitores e coordenadores de pesquisa na região. Segundo ele, o acesso a esses estudos eleva o patamar da saúde pública: “Proporciona ferramentas para melhorar a qualidade da assistência, porque os profissionais passam a ter acesso aos mais elevados padrões de qualidade, exigidos para a realização das pesquisas”.
Já a pesquisadora Fedra Irazoque, do México, esclarece um ponto importante sobre a participação em ensaios: “Estar no grupo placebo não significa ficar sem receber nenhum medicamento, mas sim receber o melhor tratamento já existente. E após algumas semanas, esse paciente também passa a receber a molécula ativa e pode se beneficiar da mesma forma”. Para os especialistas, a harmonização das leis entre os países vizinhos seria o próximo passo ideal para consolidar a América Latina como um polo de inovação científica.








